domingo, 3 de janeiro de 2010

Não digas a ninguém

Antes de mais, bom ano a todos.
Que 2010 seja melhor que o ano que passou, pelo menos para mim.

Quanto ao que me leva a escrever aqui hoje...
O título deste post podia querer dizer diversas coisas, mas não passa do título de um livro. Tal como a Celine, também eu gosto muito de ler, e aproveitei estas férias para ler uma das prendas de Natal.

Este livro escrito pela Luísa Castel Branco foi descoberto por acaso no catálogo de Natal da FNAC (e passo a publicidade), e despertou-me a curiosidade de tal forma que arranjei maneira que me viesse cair no sapatinho. Nunca tinha lido nada escrito por ela, mas fiquei surpreendida pela positiva. Há já algum tempo que um livro não me prendia tanto a atenção, a ponto de não conseguir fazer nada de jeito até acabar de o ler. Gostei muito da maneira dela escrever, de como não se limita a contar uma história. Para já, conta a história de uma forma interessante e diferente, vai-nos apresentando os personagens que vão aparecendo e explicando o necessário do passado para conseguirmos perceber o presente, porquê determinado personagem está a agir de determinada maneira. Depois, vai para além da história. Vai fazendo alguns comentários, ou críticas, que enriquecem em muito a história.

Esta história parte de uma premissa simples: 3 casais amigos (um com um casamento perfeito, outro com um casamento aparentemente perfeito, e outro que não é um casamento, apenas um homem que vai dormir de vez em quando a casa de uma das amigas) que resolvem ir passar um fim-de-semana prolongado juntos. Durante esse fim de semana, muitas coisas se passam, pessoas desiludem-se umas às outras e voltam a perdoar-se... e mais não digo.

Deixo-vos dois desses momentos em que a escritora se limita a fazer muito mais que a contar uma história.

"A amizade pode tomar muitas formas. Ou, melhor dizendo, a adulteração da palavra desvirtuou o seu sentido original. Tempos houve em que era um bem maior, uma força que unia seres humanos até ao leito da morte. Mas não nos tempos que correm.
As amizades, tal como as relações afectivas ou laborais, revelam-se cada vez mais precárias, mais descartáveis e, simultâneamente, mais vazias de conteúdo; passaram a ser sinónimo de momentos partilhados entre determinadas pessoas, em determinadas circunstâncias, e tão-só isso. Contudo, sobram as amizades da infância. Essas pareciam ser o último reduto do conceito antigo da palavra, da profundidade do sentimento.
Nem todas sobreviviam ao passar dos anos, aos casamentos, divórcios, à mutação que cada ser humano conhece ao longo da vida. Mas, quando tal acontecia, tratava-se sem dúvidade um bem maior.
Era como que magia, não a do amor, mas algo muito semelhante que permitia a dois seres humanos lerem um no outro como um livro aberto, reencontrarem-se por vezes passado um largo tempo e retomarem a conversa que tinham abandonado no exacto dia em que se despediram num qualquer café, num jantar, não importa onde.
O verdadeiro valor da amizade só é do conhecimento daqueles poucos que a possuem, que abrengem o verdadeiro significado da palavra e a amplitude do seu alcance. Porque quem tem um amigo nunca viverá só. Nunca morrerá só."

"É interessante como preferimos lidar com uma realidade que não gostamos, que nos causa desconforto e muitas vezes tristeza, do que com algo que desconhecemos em absoluto, mesmo que se assemelhe a uma alteração positiva da realidade."

Tenho dito.

3 comentários:

  1. olá,

    Lendo eu todo o tipo de livros (desde do considerado light ao que é digno de prémio Nobel) esta autora nunca me caiu nas mãos nem me chamou a atenção. Pelo que descreves parece ser interessante, pode ser que um dia me apareça no colo e eu me renda à Luísa Castel Branco. :)

    Beijinhos

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  2. Bem... A primeira transcrição que fizeste dá «pano para mangas»!

    A «amizade», enfim, é um tema sensível, não é (Celine)?

    O que me pergunto é se alguma vez «amizade» teve, na realidade vivida, todo o explendor de realização inter-pares que a mais grandiosa versão da palavra sugere? Ou será que esta precariedade dos laços entre duas pessoas sempre (leia-se 'no passado') foi tão precária como agora? Sim, porque agora está empiracamente provado que 'parvo' é aquele que pensa que pode contar com alguém! Pois...

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  3. Eu acho que a amizade sempre foi aquilo que as pessoas quiseram que ela fosse. Há quem a leve a sério e há quem ache que é apenas mais uma palavra do nosso dicionário.
    Tal como tudo na vida é relativo, mas não devia ser. Para mim devia ser tão sério como o casamento: na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Ser amigo é estar lá para o outro, seja para rir ou para lhe secar as lágrimas.
    Mas isso sou eu, uma eterna optimista talvez que leva a sério as palavras que diz.

    Tal como o amor, a amizade é uma palavra demasiado séria que é dita com a maior naturalidade como quem diz "Vou ali comer um bolo." Mas que está mal, lá isso está.

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