Mesmo depois de a companhia do costume ter recusado o meu convite para uma visita ao starbuks, arranjei-me toda à maneira (leia-se: tomei banho, pus um creme hidratante e besuntei os lábios com o meu batom rosa choque) e fiz-me ao dia cinzento chuvoso que me gozava lá fora. Os placards de temperatura marcavam 9oC, mas não me chateava o frio. A chuva, essa sim, era inoportuna, sobretudo porque, sabe-se lá como, conseguiu penetrar nas minhas botas pretas. Eu tinha os phones nos ouvidos e a música servia para afastar os fantasmas da solidão. Nada de grave, toda a gente se confronta com a solidão de vez em quando.
Estava tudo relativamente bem quando cheguei ao centro comercial do Campo Pequeno. Tinha o plano simples de comprar pilhas para a máquina fotográfica do hospital e um pacote de M&M de amendoim para me entreter enquanto lia a Premiere. Tive quase a não resistir a uma sessão de cinema. ‘The Men Who Stare at Goats’. Acho que resisti porque os cinemas estavam apinhados de putos mascarados e famílias (im)pacientes. Eu até gosto de putos, mas senti-me como um extraterrestre. Caminhei para o metro sem pressa, desfolhando a minha Premiere. Eis então que chego à página 54, aquela sobre o novo filme de Woody Allen, e dou por mim a fixar uma citação deste senhor: «A VIDA NÃO TEM SENTIDO. NÃO HÁ NINGUÉM LÁ EM CIMA (…)» Vêem como as coisas se passam!? Anda uma pessoa descontraidamente a tentar não levar a sério o facto de este ser um dos dias mais triste de sempre e dá de caras com uma insinuação deste calibre. Estas coisas tendem a fazer-nos muito mal à alma.
Foi então que vim agarrar-me às palavras que faltam dizer. Hoje, escondo-me no filme que visionei na segunda-feira, dia 8 deste mês, nos Cinemas King, ali na Avenida de Roma. ‘The Hurt Locker’, um filme da realizadora, minha desconhecida, Kathryn Bigelow; um filme que provavelmente me passaria ao lado se não figurasse como um dos dez nomeados para os Óscares deste ano. Trata-se de uma película sobre a guerra no Iraque e, portanto, é um filme de guerra, mas merece que se diga que (em certos momentos) é mais do que isso. De outra maneira, eu teria abominado, facto que não se verificou. Vale por não se meter em questões superficiais, quero dizer, em questões de mera política circunstancial. Focaliza-se na humanização do cenário de guerra e aposta mais na violência emocional do que na chocante violência física, típica do género. De qualquer forma, tem montes de balas e bombas e sequências de acção de qualidade maior e alta tensão. Os apreciadores destes cenários cinematográficos vão adorar. Em particular, os filmes de guerra sempre me deixaram psicologicamente enjoada. Seja lá o que isso for!

Apesar de tudo, ‘The Hurt Locker’ vai figurar sempre como o meu primeiro filme no King, o cinema que me deixou ver pela primeira vez, através de vidro transparente, o interior de uma sala de projecção de fitas. Foi como um regresso aos tempos passados do ‘Cinema Paraíso’. Tempos que parecem mais distantes do que na realidade estão. Tempos onde havia uma crença genuína na magia do cinema.

Agora, os tempos são de encontros imediatos com frases que fazem mal aos sonhos. Mas, tenho de ser justa com Woody Allen e a Premiere, e transcrever toda a citação. Começa da forma que sabem:
A VIDA NÃO TEM SENTIDO. NÃO HÁ NINGUÉM LÁ EM CIMA.
E continua, assim:
MAS, APESAR DE TUDO, TENTAMOS SER FELIZES.
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