
Não sou das que nega o cinema português. Aliás é com alguma pena que me lembro da forma como me deliciava com os filmes portugueses da minha adolescência. "Zona J", "Jaime" e "Adeus Pai" foram alguns dos filmes que aluguei para ver e rever em casa e, para ser honesta, gostava. Esses filmes deixavam algo em mim: a marca de quem se envolveu na história do filme.
Na última segunda, aproveitando uma volta à capital e a noite de descontos no cinema, fui finalmente ver o tão falado "Contraluz". O tal que António Feio quis apresentar dizendo "Não deixem nada por dizer, nada por fazer.". A apresentação dele foi retirada, já não aparece no início do filme e começamos logo com Joaquim de Almeida. Não é raiva aos portugueses que há muito actor americano que nem posso ver na tela mas a verdade é que Joaquim de Almeida não é dos meus actores preferidos: aquela expressão vazia, o olhar quase fechado e a falta de expressividade fazem com que eu não seja grande fã do senhor. Mas nem isto me demoveu: apresentavam o filme como sendo revolucionário, com uma mensagem forte que nos iria deixar a pensar na vida. Ora vamos a ver:
A filmagem do filme é, sem dúvida, apelativa. Cada história tem direito a tempo de antena sem ser repartida em mil bocadinhos por entre as outras histórias. Quando uma está a ser contada as outras nem sequer são referidas e isso é bom, deixa-nos envolver em cada uma história sem preocupação em perder o fio à meada. E todas as histórias convergem para o mesmo ponto, para onde termina o filme sem forçar, usando as coincidências da vida (que todos nós, pelo menos uma vez, colocámos em causa). So far so good. Mas fica por aqui.
Michelle Mania, no papel de mãe super protectora, e Joaquim de Almeida, no papel de marido em depressão com a morte da mulher, não me convencem. Falta ali algo, digamos que falta ali alma. Skyller Day (a rapariga que consegue ouvir palavras salvadoras do telemóvel avariado), Evelina Pereira (a imigrante ilegal apaixonada pelo menino rico) e Scott Bailey (o menino rico) convenceram nas cenas que entraram entregando um pouco de si a personagens distintas. Ah e Ana Cristina de Oliveira de aspecto decadente e promíscuo entra bem na pele da dona de um motel de terceira categoria e senhora de fama duvidosa.
Se sou dura com filmes americanos não posso criticar de forma leve este filme só porque é português e o orçamento é reduzido. Afinal também há muito filme independente americano que nos traz das melhores histórias que existem e o orçamento muitas vezes dá para beber um sumito e daqueles de marca branca.
O potencial está todo lá, nota-se que o filme tem uma história que merece ser contada e uma filmagem/linha de acção diferentes do que é normal mas que nos fazem prestar mais atenção aos pormenores de cada história mas sente-se que falta-lhe o danoninho do dia (falta-lhe um bocadinho assim). Ali o que era preciso era aquele momento que revira a história, aquele twist que nos faz abrir os olhos e pensar que não somos nada face à imensidão da vida. É uma pena que tenha faltado tão pouco.
Para abre olhos fico-me com as palavras do Raul Solnado e do António Feio.
(*) Raul Solnado, actor
Sabes o que um amigo meu diz?...
ResponderExcluir«Pagar para ver cinema português é premiar a mediocridade.»
Eu não iria tão longe, até porque consigo vislumbrar algumas miragens de qualidade no panorama nacional. Percebo que há esforço. Presinto algum talento. Mas, tens de concordar, globalmente é pouco e mete dó.
Parte do problema, a meu ver, está no facto de o cinema português ser essencialmente um cinema de subsídios. Se tratam o nosso cinema como um 'caso' de caridade, que opinião esperam que o público assimile? O filme está morto há nascença, só por ter nacionalidade portuguesa. Mete dó.
Se o teu amigo é português tenho te a dizer que é de extremo mau gosto a citação. Podemos ver que o nosso cinema não é dos melhores mas se ninguém apostar nele, se ninguém for às salas ver os filmes não há rendimento que justifique melhoras.
ResponderExcluirEu fui e vi e o filme não é mau mas sente-se que falta ali o twist que poderia dar-lhe a grandeza que ele merece. Agora daí a dizer mediocre é de uma estupidez terrivel. Assim à primeira vista é coisa que saí da boca dos pseudo cinéfilos, puristas e extremistas. E viva os pseudo intelectuais que sempre me irritam quando vivia em Lisboa (Lisboa é um chamariz de pseudo intelectuais, deve haver mais por metro quadrado do que no resto do país)
Mas que fazer? É sempre mais facil virar as costas do que ajudar a fazer algo.
Se o filme é de deixar de boca aberta? Não. Mas sente-se que tem tudo, tudo só lhe faltou um bocadinho assim. Mas mediocre? É triste a falta de amor ao país que nos viu nascer. Não quero ferir susceptibilidades mas é o meu ponto de vista.
Não acho que faça sentido patriotismo na crítica ao cinema (ou em qualquer outra forma de arte).
ResponderExcluirNão vamos ser benévoles e baixar a fasquia só porque o filme nasceu português. Se é mau, é mau! Que raio, pôr panos quentes seria, no mínimo, insultuoso. Claro que o contrário também é verdade. Ultraje gratuito e preconceitoso é coisa de ignorante...
Outro problema, é o facto que não termos sido 'educados' para gostar de cinema português. Até certa altura de uma existência, pensa-se pouco mais do que aquilo que é socialmente injectado. Às vezes, é toda uma vida sem perguntar porquê. Preconceito involuntário é coisa que anda por aí aos montes. Considerá-lo possível em nós é que é difícil... Mas ele está cá, não nego.
Não é baixar a fasquia, aliás fui "dura" com o filme quando saí da sala de cinema mas mais por me terem prometido um abre olhos e não ter sido assim. É ter um bocadinho de orgulho no que é português e não catalogar o cinema português de mediocre antes de entrar na sala para o ver.
ResponderExcluirAcho que o português sofre disso: lá fora é que é bom e então os pseudo-intelectuais é uma coisa incrível.
Há que ir ao cinema, ver, criticar mas dar espaço e fundos para que o que é português possa crescer. Mas não. Bom, bom é criticar de mediocre antes de ver porque nas Américas é que bom.