
Ainda me lembro quando me mudei para a capital, em 2003. Como me fascinava com a total ausência de expressão das pessoas do metro. Os mesmos que correm e dão mesmo tudo para não perder o comboio. Como me detive diante daquelas palavras de Cesário Verde na estação da Cidade Universitária: «Se eu não morresse, nunca! (…)» (Não estranharia se as tivesse estampado numa t-shirt, se não desse tanto trabalho.) Como, apesar de andar de mão dada com a dúvida, ostentava um sorriso de orgulho infantil.
Aprendi rapidamente que estar atrasado é um estado de espírito comum e, mais tarde, assimilei aquela expressão facial inexpressiva e fiquei imune aos outros. (Especialmente se vêm cravar a moedinha.) Hoje, na minha viagem de metro, ali entre Saldanha e Campo Grande, ocorreu-me que já tinha sido tudo diferente e, quando me reencontrei com «Se eu não morresse (…)», fiquei pasmada com a quantidade de mim mesma que havia esquecido.
Não esqueceste, guardaste. Deixaste te levar pelo estilo frenético da cidade e guardaste parte de ti que, sejamos sinceros, não se adequa com o que é preciso para viver lá. Inocência, dúvida e honestidade não são sinónimos de grande cidade.
ResponderExcluirTalvez seja por isso que gosto de voltar a Lisboa só como turista, a ideia de viver lá assusta-me. Mas talvez seja eu que bati com a cabeça com demasiada força em algum ponto da minha vida.
Pensar que a cidade nos desumaniza... Isso é puro cliché!
ResponderExcluirA culpa não é da cidade. A culpa é do acumular dos anos...
Vai-se o deslumbre. Fica isto.