Ontem recuei no tempo e voltei a ler como lia na adolescência. Já deitadae apenas com a luz de presença deliciei-me com as últimas páginas de um livro que me fez continuar a pensar nele mesmo depois de o fechar e arrumar na estante. A história não é elaborada e não tem mensagem milagrosa no final. As personagens não são heroínas nem problemáticos e o livro é tão discreto que cabe bem na minha mala de todos os dias. É dos que eu gosto: fininho.
Poucas páginas e uma escrita que me comoveu logo no início. Ali o tom é intimista, quase como se estivessemos a ler as páginas de um diário ou cartas que não eram para nós, às vezes dá uma certa sensação de voyerismos (ou seja lá como se escreve).
Conheci o autor através de um calhamaço (não há outro termo) e fiquei também rendida embora a história seja completamente diferente. Foi muito por causa desse calhamaço que quis este livro. Por causa disso e da frase escrita numa das abas (com a qual concordo plenamente):
"Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer.”
Isto e o ser classificado como um quase romance. Gosto pouco de classificações mas as que são diferentes chamam me sempre a atenção. E este é mais do que um romance. É uma história que já nos aconteceu a todos: o amor com lugar e hora marcada, com contexto fora do qual não faz o minímo sentido, sem futuro à partida mas que fica sempre na nossa memória perdido em fotografias que nos mantêm tal como erámos. Um romance num deserto real, mas quantos de nós não nos movemos diariamente no deserto sentimental, de valores ou seja do que for?
São muitos os que não apreciam Miguel Sousa Tavares mas eu (para ser do contra, como sempre) ainda não me desiludi com a sua escrita. Gosto que me prendam com as palavras, gosto que me façam sonhar e gosto que com poucas folhas se conte uma história linda (embora com passagens muito tristes).
O tempo que o amor dura não conta para nada porque o que é o tempo em que se vive o amor sem a intensidade dos sentimentos.
No teu deserto, o quase romance de Miguel Sousa Tavares.
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