sábado, 23 de janeiro de 2010

Três em Sete

Quem me dera estar agarrada a uma série de preconceitos e saber exactamente porque me levanto todas as manhãs.

Por mais nobre que seja o trabalho realizado na vida real e desejável a remuneração no final do mês, não (nunca) é suficiente. Mesmo as relações humanas reais (para as quais nunca desenvolvi a aptidão desejada) têm-me parecido longe do brilho de outras Eras. Se bem que um abraço totalmente espontâneo me pudesse iludir por momentos, em geral, creio ter perdido a fé na vida real. Por isso e por outras coisas que não sei dizer, nos últimos sete dias fiz três visitas ao cinema e julgo que os momentos que passei em salas escuras com telas (a ‘viver’ histórias de personagens imaginados) foram os melhores da semana e, portanto, os únicos que merecem ser partilhados.


Did You Hear About the Morgans?’, de Marc Lawrence: Foi o filme do último sábado à noite. Era para ter sido a «nossa» noite de cinema de grupo, mas por várias razões (umas mais válidas que outras, mas todas sinceramente respeitáveis) o pessoal baldou-se. Sobraram eu e a minha necessidade obsessiva de cinema. Acabei por colar-me à minha irmã e a uma colega dela e a balança do filme escolhido pendeu inevitavelmente para o género ‘comédia romântica’.

Não é a minha categoria de filme preferida, todos sabem. Longe disso. Mas às vezes, quem sabe, até pode ser porreiro. Às vezes, mas não desta vez. Longe disso. Tirando algumas cenas (poucas) capazes de suscitarem riso audível, o filme pareceu-me bastante chato, com um argumento que não trás nada de novo e interpretações sem qualquer traço de originalidade. No fundo, é uma comédia romântica com todos os clichés de uma comédia romântica. É bem provável que satisfaça quem gosta do género. A mim, apenas me distraiu.


‘Das Weisse Band (‘O laço branco’, em Português) – Eine deutsche Kindergeschichte’, de Michael Haneke: Foi o alternativo de terça-feira. Depois do esperado globo de ouro para melhor filme em língua estrangeira, não pude esperar mais – eu tinha de ver aquele que os críticos apelidavam de melhor filme europeu do ano. Mandei uma mensagem ao cinéfilo 1. Escrevi algo do género: «Vou ver um alternativo, queres juntar-te?». Foi bom ter companhia, se bem que teria ido de qualquer forma.

O primeiro aspecto a focar em relação a este filme tem a ver com a cor, ou melhor, a ausência de cor. É a preto e branco. Embora não tivesse visionado o trailer, já sabia deste e doutros factos e, portanto, não fui surpreendida. No entanto, admito que uma percentagem importante daqueles que viram ou venham a ver ‘O laço branco’ possam apanhar alguns sustos, não só em relação à (ausência de) cor, mas sobretudo em relação ao estilo de realização (lenta, quase parada, e artística), ao argumento (muito bom), aos personagens (caricaturas originais) e à língua (alemão).

A acção passa-se numa aldeia alemã, meses antes do início da Primeira Grande Guerra. Os acontecimentos malévolos que subitamente começam a ocorrer são narrados pelo professor que leccionava na escola dessa terriola. Durante todo o filme, buscam-se os responsáveis de tais barbaridades. Na minha opinião, busca-se também a razão porque essas coisas más estavam a acontecer. No final, somente uma conclusão me pareceu plausível: o «Mal» sempre esteve lá (sempre esteve «cá» dentro de nós, desde a idade da inocência).

Sem ser fisicamente violento, é um filme sobre o ‘mal’. O cinéfilo 1 chamou-lhe «ensaio sobre a maldade». Julgo ser possível encontrar n’O laço branco’ dois tipos de maldade em oposição: uma maldade pura, inocente, infantil e uma maldade perversa, amarga, madura. A primeira pode parecer quase desculpável, mas sinceramente é ainda mais arrepiante do que a segunda. Talvez precisamente por parecer desculpável (natural)!

Na prática, 75% do filme pareceu-me francamente aborrecido (sem querer habituei-me à dinâmica de Hollywood); mas umas quantas cenas foram espantosamente geniais! Compreendo o reconhecimento da crítica!


‘Nine’, de Rob Marshall: Foi a película de quinta-feira (dia do primeiro ordenado). Estava sol, nesse dia, e eu e o cinéfilo 1 fomos até ao Palácio da Ajuda. Ao final da tarde, descemos a pé até Belém. Não fomos aos pastéis, mas sim ao ‘Pão pão, Queijo queijo’ (restaurante de baguetes). À noite, cinema musical! Curiosamente, foi proposta dele. Digo ‘curiosamente’ porque ele não gosta do género e eu não gosto de ver musicais com não-apreciadores. Lá fomos.

Rob Marshall, que dizer? Há poucos anos, realizou ‘Chicago’ e foi laureado com um Óscar, facto que nunca aceitei muito bem. Mais recentemente, realizou ‘Memoirs of a Geisha’, obra que nunca vi. Este ano, Rob projecta-se nas grandes festas dos prémios do cinema com ‘Nine’, mais uma adaptação de um musical reconhecido. Claro que este era um filme obrigatório nesta temporada pré-Óscares!

‘Nine’, o filme, é basicamente uma chuva de estrelas (de Hollywood), cada uma com direito ao seu ‘videoclip’. É muito simples, diga-se, somam-se os ´videoclips’ e, pronto, temos um filme musical. Não sei se foi evidente na minha última frase, mas o mais claro nesta história é a ausência de história. Isto pode funcionar muito bem na Broadway, mas não serve para o cinema. No geral, não gostei muito, mas, mesmo assim, vale a pena ver as estrelas serem estrelas.

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