terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Up in the air

Custa-me que tantas vezes não esteja ninguém ao meu lado e, ao mesmo tempo, pesa-me ter alguém tão perto.




Quando entrei em casa, não estava triste com todos os pensamentos que fabricara na viagem de metro. Na verdade, tinha urgência em começar a escrevê-los, como se pensá-los me desse mais crédito no Mundo dos Adultos, como se tivessem valor real. Não tinham, claro. Não têm. Apenas mais tarde, quando colocava a comida no microondas, apercebi-me que estava só, em todos os aspectos possíveis, e que isso seria importante contar-vos no dia em que fui ao cinema ver o ‘Up in the air’, de Jason Reitman – a história daquele homem que (pensa que) não quer compromissos e que acaba sozinho dentro de um avião cheio de desconhecidos.
Ocorreu-me, depois do filme, que seja qual for o caminho que uma pessoa escolha (passivamente ou não) a questão ‘qual é o propósito?’ sempre se aplica, no final. Acho que isso acontece porque qualquer que seja o caminho, o fim tende a ser um lugar-comum. Se um indivíduo tira um curso porreiro, arranja um trabalho porreiro, casa com alguém porreiro, tem filhos porreiros, reforma-se aos 65 anos, tem os primeiros sintomas de Alzheimer aos 66, usa fralda aos 68… Qual é o propósito? Se um indivíduo não faz nada disto e mesmo assim tem os primeiros sintomas de Alzheimer aos 66, usa fralda aos 68… qual é o propósito?
Sinceramente, pensar (do ponto de vista filosófico) sempre me fez sentir só. Como se qualquer reflexão sobre a existência, em concreto ou abstracto, fosse inevitavelmente culminar num estado puro de solidão sem sentido. Não faço ideia se isto é coisa minha ou se acontece a outros seres humanos. A verdade, enfim, é esta: nos últimos anos, tornou-se-me evidente que a vida tem mais interesse quando estou acompanhada. ‘Mais interesse’, não necessariamente ‘mais sentido’. Estar sozinha começou a incomodar-me desde que o cinéfilo 2 tentou convencer-me que o propósito da existência era a relação. A sua teoria tinha algo de poético, sem dúvida; contudo, o ‘realista’ dentro de mim desconfia que qualquer companhia é uma alucinação, uma projecção de devaneios internos. ‘Estar com’, tal com ‘estar sem’, acaba por ser um estado de espírito.
Às vezes parece que, queira ou não queira (compromissos), o ser humano acabará sempre sozinho dentro de um avião cheio de desconhecidos.

Nota: ‘Up in the air’ é um filme completo e equilibrado, sério, mas divertido, com bom ritmo e interpretações encantadoras. Um petisco que lamber os beiços...

5 comentários:

  1. A pessoa que teve tudo porreiro pelo menos teve algo, viveu! Lamento dizer-te que para mim a outra limitou-se a sobreviver: "Ah e tal vou andando por aqui e logo se vê.". Se não é justo que as duas tenham o mesmo destino? Não. Mas uma delas levou uma vida cheia, com um punhado de conquista e um sem número de porreiros para o currículo.
    Acho que a vida não faz sentido sem propósito, sem algo que nos faça correr mas algo continuo e não apenas um objectivo (tal como a felicidade deve ser o caminho e não a meta).
    Acho que a vida torna-se muito mais interessante se, ao olharmos para trás, soubermos que vivemos tal como queriamos e que afinal até tivemos uma vida porreira.
    E podemos ter uma vida porreira com ou sem companheiro mas a verdade é que não a temos sozinhos (sem amigos ou família), acho que é a companhia (aquela que nos aquece o coração, a familia que nos apoia ou os amigos que nos fazem ir às lágrimas de tanto rir) que dão sentido à vida.Mas não sei se é o propósito, se é o que tem de ser... A paixão, talvez a paixão seja o propósito. Sim, se tivesse de apostar apostava na paixão. O amar desmesuradamente o que nos rodeia (seja outra pessoa ou algo que fazemos na vida profissional ou hobbie). Talvez a paixão seja o propósito da vida, o sermos arrebatados sem hipotese de dizer não.

    Mas isto sou só eu a falar. Eu que assumo sem quês nem porquês que não percebo nada disto.

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  2. Adoro visões românticas do propósito da existência... Que fiche, pensar como tu!

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  3. Só tens de te habituar a pensar assim. ;)

    A vida não vale muito mais a pena se for vivida assim? Não sei, sou só eu que penso assim. Uma vida preenchida e apaixonada é muito melhor. Nem que seja apaixonada pelo ar que respiras. ;)

    Andas muito negativa e desanimada, não gosto de te "ver" assim.

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  4. Ora, não ando negativa nem desanimada. Pelo menos, não na maioria do tempo. Só que agora todos me tratam por 'você' e esperam que eu seja uma 'senhora' e isso faz-me sentir mortalmente banal... quase adulta!

    Felizmente tenho um blog para esconder «os piores pensamentos» entre as linhas dos posts sobre filmes. Fogo, dito assim, parece ainda mais deprimente...

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  5. É estranho sentirmo-nos adultas, não é? Estou na mesma posição que tu embora em ambientes diferentes. Fiquei grande e, às vezes, isso assusta-me de uma foram que nunca pensei ser possível. Porque por muito criança que eu sempre seja é impossível negar que parte de mim já entrou no mundo dos adultos.
    São fases, vais ver que quando a "poeira assentar" continuas a ser a mesma pessoa apenas entraste numa fase diferente e no horário de trabalho temos de ser adultas. Só isso...

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