quinta-feira, 25 de março de 2010

Imaginarium




Caminhava para casa, depois de uma jornada de cinema solitário (‘The Imaginarium of Doctor Parnassus’, de Terry Gilliam). Não vinha com a cabeça na história, nem em nada que mereça memória. Tinha sido um filme porreiro. Visualmente porreiro. Com uma história aceitável, mas nada de encher a alma. Ao mesmo tempo que caminhava, ia escutando um programa de rádio, daqueles que ninguém tem paciência de ouvir. Havia um jornalista que fazia perguntas a imigrantes sobre assuntos da actualidade portuguesa. O primeiro assunto discutido (e único que ouvi) foi os 20% de indivíduos com doenças mentais no nosso país. Um dos comentadores disse, com uma pronúncia manhosa, que desconfiava que a percentagem estava errada, que era demasiado baixa. Os outros riram e foi uma galhofa. Percebi que o programa não era coisa séria e fiquei um bocado aliviada. Entretive-me com a conversa da treta, até que alguém disse algo que me despertou. «Ninguém é doido até que alguém diga que é.» Eu sabia disto, mas foi bom lembrá-lo. Outrora, dissequei de forma mais cuidada a loucura humana, e percebi que, como tudo o resto, existe apenas duas formas de abordá-la, ambas igualmente loucas: o ponto de vista objectivo (bio-patológico) ou o ponto de vista relativista (místico). De qualquer forma, só conheço a forma sarcástica (medrosa) de lidar com o tema. Sempre a chutar para canto. No programa, alguém (talvez o italiano) disse que em Portugal o limiar de loucura tolerado é mais baixo do que na Itália e depois fez uma piada com o presidente Berlusconi. Acrescentou que os italianos eram essencialmente mais ‘superficiais’, sendo esse facto protector da saúde mental. No fundo, estava a insinuar que o pensamento aprofundado das ‘coisas’ é um factor de risco. Então, relembrei um livro que ando a ler, onde o autor se esforçava para provar que o problema do louco nunca foi pensar de menos e ser pouco racional. Muito pelo contrário… E mais não digo porque a loucura é um beco sem saída.

Um comentário:

  1. Como é que o outro diz? De tolos e de loucos todos temos um pouco, por isso nao te preocupes que não estás sozinha.

    Chutamos para o canto tudo aquilo que nos amedronta, não é? E talvez a loucura seja o medo menos confessado mas mais sentido.

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