terça-feira, 16 de março de 2010

Two men and a Precious...

Entretanto, lembrei-me que no frenético mês de Fevereiro vi filmes aos quais nunca dei a oportunidade de uma crítica. Três, na verdade: ‘Precious: Based on the Novel Push by Sapphire’, de Lee Daniels, ‘A Serious Man’, dos irmãos Coen e ‘A Single Man’, de Tom Ford. Curiosamente, os três contaram histórias que se entrelaçaram na minha existência com um sentido que não será nunca racional. Especialmente os dois últimos, trouxeram-me novos motivos de reflexão. Azar dos diabos, porque eu não sou mulher de grandes reflexões, sobretudo daquelas honestas!



O ‘Precious’ foi uma bofetada bem dada nos preconceitos que me atrofiam o cérebro. Aquele detalhe de ser produzido pela Oprah, estão a ver, é coisa que não deve soar bem nos ouvidos dos pseudo-intelectuais. Eu temia que Oprah transportasse para o cinema o seu «mau gosto» televisivo. Fui demasiado directa!? Ora, até meti ‘mau gosto’ entre aspas! Toda a gente sabe que Oprah Winfrey usa a sua capacidade de dissecar os dramas privados num programa de tv de sucesso inquestionável. Só que a exposição de aspectos íntimos sempre me incomodou. Isto deve dizer muito sobre o meu carácter obtuso. [Risos] Na verdade, podemos contar a história da nossa vida sem que ninguém vislumbre um relance de intimidade. Enfim, ao que interessa: era um filme que podia ter descambado para o drama histérico, mas não descambou. A culpa foi também das interpretações intensas, mas contidas na porção certa, das duas protagonistas. Aquela última cena de Mo’Nique é quase um tratado sobre a história do medo e da Humanidade. Revelador. A Humanidade quase nunca tem «bom gosto».



Às vezes, sinto que existem raros seres que falam a mesma linguagem que eu. Não é o caso dos irmãos Coen. Estes não falam, definitivamente, a mesma língua que eu, a bem dizer, não falam a língua de ninguém. Eles divagam sobre a vida num estilo Nonsense, que por definição é objectivamente não-entendível. Contudo, meus amigos, encontro-me numa fase, mais ou menos, permanente de identificação imediata com aqueles que interpretam a existência como uma espécie de caos organizado sem sentido nenhum. Assim, o Nonsense dos Coen faz todo o sentido para mim. No caso de ‘A Serious Man’, senti que a minha existência psíquica estava a ser biografada metaforicamente. A história é aquela do indivíduo que é boa pessoa e vê-se confrontado com uma série de situações aborrecidas (no mínimo) que o obrigam a procurar respostas… Não há Óscares que me convençam do contrário, é o melhor argumento original da temporada!



A propósito de ‘A Single Man’, ainda estou longe de poder considerar que é, simplesmente, um filme dramático sobre o luto. Sem dúvida que é um filme sobre perda, sobre a perda de um companheiro, de alguém importante, mas não é isso que marca, se quisermos ser honestos. O protagonista é gay e esse facto elementar modifica todo o entendimento. Na perspectiva estritamente feminina, da qual não posso fugir, o filme é quase irritante. Julianne Moore é o culminar dessa irritação latente e a sua cena principal demonstra como, nesta história, ser mulher é, enfim, ridículo. Na prática, é um filme que se demarca pelas interpretações de qualidade e uma realização de detalhes.

4 comentários:

  1. Bom, em relação aos 2 últimos filmes de que falas, não posso opinar porque não os vi.

    Mas tenho algo a dizer em relação a "Precious".

    Antes disso, um aparte. Quem diz que o programa da Oprah Winfrey se baseia em "dissecar os dramas privados"... OffTimeGirl, nunca deves ter visto nem nenhum programa da referida apresentadora, nem nenhum da Júlia Pinheiro/Manuel Luís Gpucha para poderes comparar e saberes do que falas. Os programas dela são uma das únicas maneiras de levar informações importantes aos americanos. Ela consegue ensiná-los a comer, explicar-lhes que fazer exercício faz bem, como ajudar se tens problemas com o crédto... Claro que sempre com algum sensionalismo, mas também muito bom senso e seriedade, que é um pouco (ou muito) do que falta neste país.

    Voltando ao filme. É realmente uma bofetada, porque ao contrário de muitos filmes, retrata a realidade pura e dura de muita gente, sem os paninhos quentes que normalmente se mete. Não pende para o exagero da desgraça, mas faz pensar se realmente os nossos problemas são tão graves como os queremos fazer parecer.
    Concordo em relação à Mo'Nique. O medo da Humanidade. Arrisco-me a dizer que tal será acabar sozinho?

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  2. Num aspecto estás totalmente correcta, sou pouco conhecedora dos conteúdos do programa da senhora Oprah. Vi escassos minutos de escassos programas, sem dúvida, mas não creio estar muito enganada em relação ao que escrevi.

    É claro que o programa pode ser entendido de todas as perspectivas que quisermos. Podes dizer que Oprah é uma humanista por excelência e faz um programa com o propósito elevado que «ajudar» a humanidade em todas as vertentes possíveis.

    Mas aquela tua frase:

    «Os programas dela são uma das únicas maneiras de levar informações importantes aos americanos.»

    é arriscada!

    Qualquer um com más intenções poderia supôr que estás a menosprezar a inteligência dos americanos...

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