terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Metro(s)


Hoje de manhã, ao contrário do normal, andei de metro.
Como alguém sem veículo de transporte próprio que vive a maior parte do tempo na capital, é um meio de transporte que não posso desprezar. Contudo, tenho a sorte de poder andar de autocarro no meu percurso diário habitual, apenas andando de metro se tenho que fazer algum desvio ou há algum condicionamento de trânsito.

O autocarro é um meio de transporte muito mais simpático que o metro. Menos pessoas, mais paragens, vai até locais onde o metro não vai e lá dentro custuma haver um ambiente agradável, sem fumos ou correntes de ar (sendo excepção dias de chuva intensa, em que a coisa se pode complicar).

Na minha deambulação matinal de metro, por preguiça de pesquisar um autocarro que me levasse onde queria ir, andei pelos corredores das estações ao meu ritmo, a observar as pessoas. Um exercício frequente também nas minhas viagens de autocarro. Mas o metro é diferente, mais impessoal. as pessoas andam demasiado apressadas, atropelam-se e empurram-se mutuamente, só mais um pouquinho para conseguirem entrar. E quando dou por isso vou tipo sardinha em lata, no meio de várias pessoas que não conheço e que não querem saber se me estão a pisar. Só querem sair dali o mais rápido possível, chegar aos seus empregos e esquecer a viagem. Porque não vêm nada quando olham pelas janelas. Quando não estão tapadas por quem está à sua volta... É demasiado impessoal, não há um motorista a quem se possa dizer bom dia, ou ver a rua, os carros, as pessoas, sem ir tipo sardinha em lata.

Mas acho que é suposto o metro ser assim. O de Londres é enorme, com mais linhas que conseguimos contar e quando se sai das estações demora-se tanto no elevador que parece que se está a sair das entranhas da terra. Em Paris e Roma tem estações com mais corredores que acho que dava para correr a meia maratona lá dentro. O de Washington tem estções em todos os sítios menos onde interessa, tipo ao pé dos monumentos e museus. Nova Iorque, sem comentários. Quente, sujo e atulhado de gente. E cuidado, se apanhas um rápido ficas a ver a estação passar. Boston, que coisa mais estúpida. A direcção do metro é para fora ou dentro do centro. Qual centro? Em Amsterdão, por razões óbvias, não dava muito jeito estar a furar, e inventaram uma espécie de eléctrico que quase que atropela o visitante mais descuidado.

Contudo, apesar dos defeitos que o metro em geral apresenta, as nossas estações são autênticas obras de arte. Como nunca vi em nenhuma das cidades referidas. Estações clean, arejadas, luminosas e muito bonitas e bem arranjadas. As frases nas paredes das estações do Parque, Cidade Universitária e nova estação da Alameda, os azulejos nas Laranjeiras, as estátuas no Campo Pequeno, os enormes pilares tom cobre das Olaias, o colorido das peredes em Alvalade, ou as placas de acrílico que meteram recentemente quando se sai do túnel na vizinha Roma. E depois os enormes corredores do Marquês e São Sebastião. As escadas rolantes da Baixa-Chiado. Da confusão que é Entrecampos. Do Campo Grande, apertadinha e sempre cheia de gente. Das estações da Avenida da Liberdade, que nos levam para o centro. E daquelas que nos levam aos centros das compras, como o Campo Pequeno, Saldanha, Colégio Militar, Oriente. Do túnel que passa na rua perto da Bela Vista. Das estações mais modernas, Santa Apolónia e Terreiro do Paço, às velhinhas Areeiro, Arroios, Anjos, Intendente e Avenida, que esperam por arranjo. E aquelas onde nunca saí, como Odivelas, Amadora, Alfornelos e Telheiras. Pelas que vão nascer, como Moscavide, Encarnação e Aeroporto, e pelas que se espera que venham, Campolide, Amoreiras, Campo de Ourique e Estrela.

A minha mãe andou no velhinho Metro de Lisboa, e provevelmente os meus filhos irão andar quando tudo for diferente de agora. Porque é um transporte que se pode usar, onde se assistem a discussões, figuras tristes, bebedeiras, amena cavaqueira de quem vai ou vem da escola, ou se ouve a música de alguém mais saído da casca. Não posso negar a vantagem do metro, mesmo não sendo o meu preferido.

Se toda a gente parasse para observar os sítios onde passa e sai dia após dia, talvez descobrisse as obras de arte que as rodeiam. E talvez as viagens de todos fossem mais agradáveis. Porque de manhã é que se começa o dia e os pormenores fazem com que sejam mágicos.

2 comentários:

  1. Olá.

    Está muito bem, sim senhor.

    É conhecida a minha posição sobre o metro. De longe o melhor transporte para girar na cidade. No teu texto, talvez sem querer, acabaste por inumerar algumas das mais fantásticas vantagens do metro. Destaco:

    - A frequência
    - A rapidez
    - A indepêndencia do trânsito

    O carácter depressivo, maquinal, e, às vezes, asqueroso; só o torna... poético e encantador.

    ;)

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  2. Não gosto do metro. É uma coisa muito minha que tentei reprimir ao longo dos anos mas estou cansada. Não gosto e não tem nada a ver com sujidade ou seja o que for: é o estar fechada debaixo da terra. Devo sofrer de claustrofobia. O que gosto mesmo é de me perder nas ruas da cidade (e a nossa tem ruas lindíssimas e prédios de admirar. A ver a pintura no prédio em restauro em frente ao cartório do registo civil na Fontes Pereira de Melo)

    Não gosto de estar fechada. Nada disso. Gosto de sair, apertar o casaco para me proteger do frio e gastar a sola pelas ruas. Digamos que sou mais pelo romantismo.

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