(Crítica ao filme 'Tetro', de Francis Ford Coppola)

Comprei bilhete para ver ‘Tetro’ às 16h50. A ideia era ver um filme de animação, mas não estava nenhum em cartaz. Meu Deus, no Porto não se encontra muita escolha. ‘Tetro’ seria um bom filme para ver com os meus amigos cinéfilos. Coppola, estão a ver, é coisa para amantes de cinema!
Tinha algum tempo antes do filme, sentei-me na zona de restauração do Centro Comercial a rabiscar umas frases que depois podia usar num post. Tinha um livro na mala, mas era um romance e não queria meter-me nisso. Podia ter ido dar uma volta, ver as montras, mas tinha os pés (sobretudo o pé direito) feitos num oito! (Quem manda fazer a avenida da Boavista a pé com «estas» botas?) Assisti a uma discussão avó–neta na mesa à minha frente. Olhei o relógio. 16h22. Tinha tempo demais: podia reescrever o meu segundo dia no Porto. Podia sim senhor! Na verdade, tinha passado todo o dia a narrar os meus próprios passos. Acontece-me quando estou sozinha e não quero pensar em coisas chatas, como no facto de estar sozinha. [Risos.] Não que os três dias e duas noites no Porto tenham sido passados sem qualquer companhia. Não. Mas prefiro não pensar na companhia. (Às vezes é mais angustiante ter alguém que nos dá a mão.)
Estive em Serralves de manhã. Vi uma exposição de fotografia de um Português cujo nome não fixei. Foi quase horrível. Perguntei-me continuamente se era possível que aquele autor contemporâneo estivesse mesmo convencido que estava a comunicar o que quer que fosse com os restantes Seres Humanos? O problema deve ser meu…

Apesar de já estar muito lixada dos pés, dei uma volta nos jardins de Serralves. Fugi o mais depressa que me foi possível de um grupo de adolescentes que vinham no meu encalço e sentei-me num banco a comer o croissant misto e a beber o leite com chocolate que comprei no Pingo Doce. Almoço espantoso! Nessa altura, estava totalmente só. Haviam nuvens, mas também haviam pedaços de céu azul. Soube que tinha de fuqir dos meus próprios pensamentos. Envelheço muito por cada minuto que passo a pensar na 'vida real'. (Pensar é fatal!) Então, tive a certeza que precisava de uma sala de cinema. E rápido! Claro que já estava nos meus planos ver um filme no Porto. Em tempos prometi a mim mesma que havia de ir ao cinema em todos os lugares do Mundo onde metesse o pé. Contudo, naquele momento, a minha mente emitiu um S.O.S. Cinema. Era urgente fugir da ‘vida real’. Urgentíssimo!

Tive de apanhar um táxi. Já não conseguia fazer o caminho de volta a pé. Como estava bom tempo, obriguei-me a ir até ao Palácio de Cristal, antes da sessão de cinema. Havia lá uma exposição qualquer Filandesa, mas não estava com paciência. Acabei por dar uma volta pelos jardins do Palácio, o que até foi bom, porque dava para avistar o rio Douro, lá em baixo, e a paisagem era francamente bonita. Fiquei frustrada por não ter máquina fotográfica. Ainda tentei usar a câmara do telemóvel, mas não ficou nada de jeito. Demorei alguns minutos a tentar decorar aquela imagem. O mais certo é acabar por esquecê-la, como tudo o resto...
O tempo passou rápido. Bem vistas as coisas, passa sempre… 16h46. Hora de entrar na sala 2.

19h12. O filme terminou e voltei a sentar-me na zona da restauração. Recebi uns sms e distraí-me. Lá estava a ‘vida real’ a invadir-me de novo. Resolvi escrever de imediato sobre o filme para não deixar que as sensações fossem adulteradas pela ‘vida real’.
A propósito, que raio de filme! Não podia ter sido pior escolha! Quero dizer, dadas as circunstâncias... Não que seja um mau filme. Nada disso! De resto, era impossível: Coppola é um verdadeiro artista! Mesmo que a história nos desaponte, o que foi o caso desta vez, podemos sempre admirar a beleza estética da sua realização. Não conheço nenhum realizador que filme tão bem. Cada plano parece meticulosamente escolhido e fico sempre com a sensação (vagamente desagradável) que existem segredos escondidos em cada cena. Como se houvesse outro filme escondido por trás do filme que toda a gente vê. É esquisito! Aconteceu o mesmo quando vi o ‘Youth Without Youth’, do mesmo realizador. Senti a mesma estranheza. Se bem que, nesse filme, ainda foi pior: tive de pedir aos cinéfilos 1 e 2 que me explicassem o que é que aquela história significava e, apesar dos esclarecimentos, nunca encontrei um sentido. Coppola não faz bem ao ego: confunde-nos e faz-nos sentir estúpidos!
Sei perfeitamente que ‘Tetro’ tem grande qualidade artística; no entanto, a história, muitas vezes, tristemente trágica, teatral, pungente, era, definitivamente, o que eu não precisava de ver naquela tarde de isolamento! Saí da sala de cimena mais melancólica do que entrei.
Entretanto, enquanto escrevia a crítica ao filme, a minha companhia, aquela da qual não tenho nada para dizer, mandou um sms a dizer que tinha uma reunião e não podia jantar comigo. (‘Vida real.’) Não sei se fiquei desiludida ou aliviada. (Às vezes é mais angustiante ter alguém que nos dá a mão.) [Risos]
Bem pensava que era a única doida que narrava o dia para si mesma quando estava sozinha mas parece que afinal há mais como eu. :)
ResponderExcluirEm relação ao que sentes nos filmes do Coppola tenho te a dizer que é basicamente o que eu sinto quando falo contigo sobre alguns filmes, fico a pensar: "Mas ela viu o mesmo filme que eu?". É por isso que gosto de falar de cinema contigo, leva-me a ver as histórias de outro prisma.
Não posso dar a minha opinião sobre o filme porque nem ouvi falar dele e, para ser sincera, os filmes dele não são os que mais me atraem embora reconheça as qualidades do realizador.
Mas fico triste que tenhas estado tão melancólica no Porto, que é feito da OffTimeGirl com aquelas "parvoíces" do costume? E não penses muito na vida real, eu deixei de fazer isso que já me estavam a ameaçar umas quantas rugas de preocupação. Relax, take it eeeeaaaasy. :)
Em relação às minhas críticas cinematográficas...vou pensar no assunto. ;)
Até já. :)